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“De vento em polpa”

terça-feira, maio 20, 2008
“De vento em polpa”
A fruticultura cearense vai “muito bem, obrigado”. Depois de registrar no primeiro bimestre de 2008 um crescimento de 124,3% sobre as vendas externas do mesmo período no ano passado, e de se consolidar como um dos principais setores exportadores do estado, o segmento acaba de superar a barreira sanitária imposta por vários anos pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) às frutas produzidas em terras alencarinas.
O órgão reconheceu recentemente, como áreas livres da praga anastrepha grandis, mais conhecida como “mosca azul”, os municípios cearenses de Aracati, Icapuí, Itaiçaba, Jaguaruana, Limoeiro do Norte, Russas e Quixeré, nos quais estão concentradas as maiores empresas do setor de frutas do agronegócio cearense. A conquista ocorreu depois da investida do empresariado local durante recente visita do embaixador norte-americano Clifford Sobel à FIEC.
Na ocasião, o empresário e fruticultor Carlos Prado, sócio-proprietário da Itaueira, ofereceu melões de sua produção como sobremesa ao embaixador dos EUA. Estava, assim, traçado um novo destino para a fruta, que é líder no ranking das exportações cearenses de seu segmento.
 
ROMPENDO BARREIRAS
 
Após provar da fruta, Sobel se surpreendeu com o sabor agradavelmente doce e perguntou se haviam colocado açúcar no melão. Foi então que o empresário explicou que, apesar de deliciosa, tal fruta vinha tentando há anos romper a barreira sanitária imposta pelos EUA. O resultado da iniciativa foi a abertura das portas do mercado consumidor norte-americano às exportações cearenses de melão e melancia. “O trabalho da FIEC, de criar o ambiente propício para esse tipo de negociação, foi fundamental para o desenrolar do processo”, reconhece Prado.
A superação do embargo dos EUA e o crescimento do valor exportado pelo setor a cada ano desafiam o cenário econômico mundial. Nos dois primeiros meses de 2008, enquanto os principais setores produtivos do país apresentaram retração nas exportações diante da crise do câmbio, as frutas cearenses acumularam um crescimento de 124,3% sobre as vendas externas de janeiro e fevereiro do ano passado, considerando as exportações em dólares FOB. Em moeda, o valor exportado cresceu de US$ 8,84 milhões, no primeiro bimestre de 2007, para US$ 19,83 milhões, no mesmo período deste ano.
Na liderança do ranking das exportações cearenses de frutas está o melão. Nos dois primeiros meses deste ano, o valor exportado do produto chegou a US$ 13.570.285, registrando um crescimento de 235% – o segundo maior incremento sobre as vendas externas do mesmo período no ano passado (US$ 4.050.977). O abacaxi, em segundo lugar nas vendas, com US$ 2.445.599 exportados, teve crescimento de 4,1%. Em termos percentuais, o destaque ficou com a melancia, que cresceu 334,5%, atingindo US$ 1.174.688 em vendas externas contra os US$ 270.333 do exercício anterior. A exportação cearense de bananas deu um salto de 129,1%, enquanto a manga registrou elevação de 36,1% no comparativo do primeiro bimestre 2008/2007.
Segundo o presidente da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece), Antonio Balhmann Cardoso Nunes Filho, o expressivo crescimento da fruticultura cearense, neste começo de ano, é resultado de um longo trabalho que vem sendo feito pelo governo, que encarou o segmento como prioritário para a economia cearense. “Conseguimos atrair empresas fruticultoras de renome nacional e internacional e contratamos profissionais qualificados, que têm auxiliado os empresários a melhorar seu desempenho. O Ceará também aproveitou a infra-estrutura disponível em favor do segmento, como água, portos e estradas, além dos incentivos por meio do Fundo de Desenvolvimento Industrial (FDI)”, destaca.
Dados do Instituto Agropolos do Ceará indicam que, na última década, o valor exportado pelo setor de frutas cearense saltou de US$ 454.786 (1997) para US$ 77.254.293, no ano passado. A balança comercial (diferença entre as exportações e importações), que era negativa em 1997 (-US$ 2.623.400), terminou 2007 com saldo positivo, somando US$ 77.054.279. No mesmo período, a participação das frutas no total exportado pelo Ceará passou de 0,13% para 6,73%.
Até 2010, a projeção dos produtores é que as exportações de frutas frescas cearenses cheguem a somar US$ 200 milhões, valor quase três vezes superior ao registrado em 2007 (US$ 77,2 milhões) e o dobro do valor previsto para este ano – US$ 100 milhões. “Se atingirmos essa marca, serão gerados mais de 30 mil empregos no interior”, estima o representante do agronegócio no Conselho de Desenvolvimento Econômico do Estado (Cede), Jorge Parente Frota Júnior.
O otimismo do setor tem respaldo no apoio institucional do governador Cid Gomes, que chegou a visitar no mês passado a Fruit Logística, em Berlim, numa demonstração de que a fruticultura é uma das prioridades do atual governo. Além de conhecer a feira, que reúne grandes importadores internacionais de frutas, companhias de navegação e demais representantes do mercado fruticultor mundial, o governo do estado planeja investir em melhorias na malha viária e nas instalações do Porto do Pecém.
“O governador Cid Gomes tem se empenhado pessoalmente em ampliar as possibilidades de investimento no setor. O Ceará exportou no ano passado US$ 77 milhões e a meta é chegarmos a US$ 100 milhões até o fim do ano. Considerando a elevação da estrutura de exportação de frutas do Complexo Portuário do Pecém, teremos a implantação até novembro deste ano do terminal de frutas (Terfrut)”, assegura Balhmann. O novo terminal autorizado este ano pelo governador contará com a ampliação de 528 tomadas para contêiner. O projeto está em andamento.
O empresário Carlos Prado reconhece o apoio do governo estadual: “Cid Gomes tem procurado ajudar o setor de várias maneiras. Liberando recursos para equipar laboratórios de análise de resíduos; buscando a movimentação cada vez maior de contêineres no Porto do Pecém; investindo em rodovias que atendam o setor produtivo; procurando atrair investidores em visita a feiras internacionais; criando condições tributárias adequadas, inclusive com a devolução dos créditos de ICMS das exportações; e proporcionando apoio político em Brasília, visando criar condições fiscais adequadas. A parceria do governo com o setor produtivo enseja o ambiente necessário ao desenvolvimento”.
Mas Prado não esconde a sua preocupação em relação ao escoamento da safra deste ano. “Há problemas sérios que precisam ser resolvidos. Ainda não há a certeza de que o Porto do Pecém estará equipado com o número de tomadas elétricas para a movimentação do volume de contêineres que se prevê para esta safra”, diz, para acrescentar: “Caso não haja solução em tempo, muitos contêineres terão que ser desviados para outros portos, o que criará um verdadeiro colapso ao setor. A Ceará Portos, empresas de navegação, Adece e produtores têm se reunido em busca de uma solução. No entanto, pelo pequeno prazo que resta para as providências, estamos correndo sérios riscos”.
O receio também atinge o presidente do Instituto Frutal, Euvaldo Bringel, para quem a ampliação do terminal portuário precisa ser efetivada em caráter de urgência, sob o risco de prejudicar o escoamento da safra de frutas do estado em 2008. Se não for cumprida toda a burocracia legal para implantação do projeto, Bringel acredita que será impossível concluí-lo ainda este ano.
Na opinião de Jorge Parente, outro obstáculo que precisa ser superado pelos fruticultores, em relação à estrutura do Porto, diz respeito ao governo federal. “Ele tem sido um entrave à fruticultura cearense. Recentemente, foi reduzido em 50% o número de fiscais do Ministério da Agricultura no Porto do Pecém, que é o maior exportador de frutas do Brasil”, observa o representante do Cede.
Mesmo com a atenção voltada para Pecém, Carlos Prado também admite estar inquieto diante da crise do câmbio. “A valorização do real tem prejudicado muito os setores exportadores. Os fruticultores desenvolvem um grande esforço para aumentar o preço em dólares de seus produtos, visando manter o ritmo de crescimento de suas atividades. Caso tenham sucesso, as exportações continuarão aumentando”, torce o empresário.
O esforço dos produtores parece estar dando certo. No ano passado, quando a moeda norte-americana já estava em declínio, as exportações de frutas frescas do Ceará apresentaram crescimento sobre 2006 de 56,2% em relação ao valor exportado e de 22,8% em volume, com o embarque de 124,5 mil toneladas. O melão foi o primeiro no ranking das exportações cearenses de fruta, com US$ 41,9 milhões em 2007, contra US$ 29,1 milhões, no exercício anterior, revelando um crescimento de 44,1%. Em segundo lugar ficou o abacaxi, com US$ 15,8 milhões, contra os US$ 5,9 milhões exportados em 2006, correspondendo ao incremento de 168,1%.
Para Jorge Parente, a força da fruticultura cearense é justificada pela vocação do estado, que tem sol e solo propício, e pela nova gestão das águas do governo do estado, garantindo a irrigação dos campos. “Além disso, o Ceará tem boa posição geográfica, o que facilita a logística das exportações. O setor conta ainda com a parceria do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), na capacitação, e do BNB, na concessão de crédito ao produtor. A conjunção desses fatores é que vem propiciando o incremento da participação do Ceará na fruticultura”, afirma.



Fonte: http://br.news.yahoo.com/060320/11/12xhp.html

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