A doença causada pelo vírus da hepatite (HEV) é denominada hepatite E, ou hepatite não-A não-B transmitida por via entérica. Outros nomes incluem hepatite não-A não-B fecal-oral, e hepatite não-A não-B epidêmica. Essa doença não deve ser confundida com outras hepatites também denominadas hepatites não-A não-B transmitidas por via parenteral, como a hepatite C ou outras. A hepatite causada por HEV é clinicamente similar ao quadro produzido pela hepatite A. Os sintomas incluem indisposição, anorexia, dor abdominal, artralgia e febre. A dose infectante não é conhecida. A taxa de letalidade é similar à da hepatite A , de 0,1 a 1%, exceto em grávidas, onde a taxa pode alcançar 20% entre aquelas infectadas durante o terceiro trimestre de gravidez. São conhecidos casos esporádicos e surtos pelo HEV.
Agente etiológico - o vírus da hepatite E é uma partícula com um diâmetro de 32 a34nm, que pode ser encontrado nas fezes durante a fase aguda precoce da infecção com um coeficiente de sedimentação de 183 S (comparado com o da HAV de 157 S). O HEV é estruturalmente similar ao calicivirus.
Ocorrência - a hepatite E ocorre em ambas as formas epidêmica e esporádica, principalmente em países ou áreas com saneamento básico inadequado. São freqüentes os surtos devido ao consumo de água contaminada, ainda que haja casos registrados esporádicos ou mesmo epidemias sem evidências claras da fonte de transmissão.
Reservatório - desconhecido. A ocorrência de casos esporádicos pode ser a causa da manutenção da transmissão durante os períodos inter epidêmicos, contudo não se pode descartar a possibilidade de transmissão através de animais. Sabe-se que o HEV se transmite para chimpanzés, macacos, porcos e outros animais.
Período de incubação - pode variar de 15 a 64 dias, com uma média de 26 a 42 dias em epidemias. A doença geralmente é leve e se cura em 2 semanas, não deixando seqüelas.
Modo de transmissão - principalmente por água contaminada e pessoa-a-pessoa, por via fecal-oral, existindo também a possibilidade de ser transmitida por outros alimentos. O HEV não tem sido isolado de alimentos. Não há ainda nenhum método disponível para análise rotineira dos alimentos.
Período de transmissibilidade - não conhecido. O HEV tem sido detectado em fezes até 14 dias após o aparecimento da icterícia.
Susceptibilidade e resistência - a susceptibilidade é desconhecida. Mais que 50% das infecções por HEV são anictéricas e o aparecimento da icterícia parece aumentar com a idade. Mulheres, especialmente no terceiro trimestre de gravidez são suscetíveis à hepatite fulminante. Não há uma explicação para a ocorrência de epidemias em adultos jovens em áreas geográficas onde outras viroses entéricas são altamente endêmicas e onde essas infecções ocorrem, em sua maioria, na infância.
Diagnóstico da Doença Humana e tratamento - é baseado em características epidemiológicas de surtos e por exclusão de viroses de outras hepatites por testes sorológicos. A confirmação requer a identificação de partículas do tipo do vírus (de 27-34 nm) por microscopia eletro-imune em fezes de pacientes com a doença em fase aguda. Os mesmos cuidados gerais e isolamento exigidos na hepatite A são aplicáveis para os doentes e contatos da hepatite B. Não há tratamento específico. Também não está bem estabelecida a eficácia da imunização de contatos com IG.
História de Surtos Recentes - as principais epidemias veiculadas por água têm ocorrido na Índia (1955 e 1975-76), antiga URSS (1955-1956), Nepal (1973), Burma (1976-77), Argélia (1980-81), Costa do Marfim (1983-84), em campos de refugiados no leste do Sudão e Somália (1985-6), e mais recentemente em Bornéo (1987). O primeiro surto relatado no continente americano ocorreu no México em 1986. Até agora, não ocorreram surtos nos EUA, mas foram identificados casos importados em Los Angeles em 1987. Não existem evidências para imunidade contra esse agente na população americana. Saneamento básico e higiene pessoal parecem ser as melhores medidas de prevenção. No Brasil não se faz o diagnóstico porque não se investigam ainda adequadamente as hepatites, especialmente os surtos.
Medidas de controle –
1) notificação de surtos - a ocorrência de surtos (2 ou mais casos) requer a notificação imediata às autoridades de vigilância epidemiológica municipal, regional ou central, para que se desencadeie a investigação das fontes comuns e o controle da transmissão através de medidas preventivas, principalmente, medidas educativas. No caso de creches e pré-escolas, ou instituições fechadas recomenda-se a notificação à vigilância epidemiológica logo no primeiro caso, para que medidas precoces de caráter higiênico-sanitárias sejam tomadas visando a impedir a disseminação da infecção. Orientações poderão ser obtidas junto à Central de Vigilância Epidemiológica - Disque CVE, no telefone é 0800-55-5466;
2) cuidados com o paciente- a) isolamento - é necessário o isolamento e afastamento do paciente das atividades normais (se criança, isolamento e afastamento da creche, pré-escola ou escola) durante as primeiras duas semanas da doença, e não mais que 1 mês depois do início da icterícia; exceções devem ser feitas e avaliadas no caso de surtos em creches com crianças muito jovens, sem controle esfincteriano (uso de fraldas), onde a exposição entérica está facilitada e pode ser prolongada. b) desinfecção concorrente - disposição sanitária adequada de fezes, urina e sangue e cuidados de desinfecção e máxima higiene. A utilização de cloro ou água sanitária é eficaz para a desinfecção de objetos, limpeza de bancadas, chão, etc.). c) imunização de contatos - não se conhece a eficácia da IG (imunoglobulina);
3) medidas preventivas - a) educação da população quanto às boas práticas de higiene pessoal com especial ênfase na lavagem rigorosa das mãos após o uso do banheiro, na preparação de alimentos, antes de se alimentar; na disposição sanitária de fezes, etc.; b) medidas de saneamento básico - sistema de água tratada e esgoto são essenciais para a redução da circulação do vírus; cuidados são necessários para impedir a contaminação da água de consumo humano; c) orientação das creches e pré-escolas e instituições fechadas para o estabelecimento de medidas rigorosas de higiene, para minimizar a transmissão fecal-oral. Lavagem rigorosa das mãos toda vez que efetuar trocas de fraldas, lavagem rigorosa das mãos no preparo dos alimentos e antes de comer, desinfecções de objetos, bancadas, chão, etc.;
4) medidas em epidemias - a) a investigação epidemiológica parte da notificação do caso e deve ser imediatamente realizada pela equipe de vigilância epidemiológica local buscando identificar a forma de transmissão se pessoa-a-pessoa ou por um veículo transmissor comum, bem como, identificar a população de risco à infecção; a equipe de vigilância sanitária deve ser acionada para que medidas sejam tomadas no âmbito do controle da água, dos alimentos, das condições sanitárias dos estabelecimentos, meio ambiente e outras; b) detecção da fonte comum de transmissão, a investigação deve buscar encontrar se a fonte é a água, um manipulador de alimentos, ou outras; a melhor medida é o saneamento básico para impedir a contaminação de água e alimentos.
Bibliografia consultada e para saber mais sobre a doença
- AMERICAN PUBLIC HEALTH ASSOCIATION. Control of Communicable Diseases Manual. Abram S. Benenson, Ed., 16 th Edition, 1995
- CVE/SES-SP. Hepatites Virais - Normas e Instruções, 2000. CVE. São Paulo, 2000
- FDA/CFSAN Bad Bug Book – Hepatitis E. Internet http://www.fda.gov
- Focaccia, R. Hepatites Virais In: Veronesi, R. & Focaccia R. Tratado de Infectologia. Ed. Atheneu, Vol. 1, São Paulo, 1996, p. 286-288.
- STAPLETON, J.T.; LEMON, S.M. Hepatitis A and Hepatitis E. In: HOEPRICH, P.D., JORDAN, M. C. RONALD, A.R. Infectious Diseases - A Treatise of Infectious Processes. J.B. Lippincott Company, 15 th Edition, Philadephia, USA, 1994, p. 790-800.
Texto elaborado pela Divisão de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar - CVE/SES-SP, com a colaboração dos alunos do I Curso de Especialização em Epidemiologia Aplicada às Doenças Transmitidas por Alimentos - Convênio CVE/SES-SP e Faculdade de Saúde Pública/USP - Ano 2000/2001.
Fonte: http://br.news.yahoo.com/060320/11/12xhp.html