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Logística Social. O Pioneirismo Brasileiro

segunda-feira, setembro 4, 2006
Para sua festa de quarenta anos Andréia avisou aos convidados: “Não me tragam presentes! Tragam alimentos não perecíveis pois quero doá-los a um orfanato que conheci perto do meu trabalho”. Foi uma festa e tanto pois até o Bola, colega da época de faculdade que ela não via há décadas, apareceu.  Ele trouxe alguns pacotes de feijão. A Paula, uma caixa com latas de leite em pó. A Cris a presenteou com vários pacotes de arroz que ficaram empilhados ao lado dos pacotes de açúcar do Mário.  A festa foi ótima e todos elogiaram a bonita iniciativa da Andréia.

Dia seguinte. O Bola tinha uma caminhonete e havia se comprometido a ir com a Andréia levar os alimentos ao orfanato.  Anna, a voluntária da creche, ao ver o veículo estacionando, cruzou os dedos e pensou: “tomara que sejam cobertores, tomara que sejam cobertores...”.  Mais alguns segundos e percebeu que os dois velhos amigos descarregavam alimentos que em seguida eram empilhados num canto da cozinha.  Eram muitos pacotes de arroz, açúcar e feijão; algumas caixas de latas de leite em pó e algumas latas de óleo de soja.  O olhar de Anna era de quem já estava acostumada a ver aquela cena: doadores felizes com suas nobres ações.  Após descarregarem tudo, conversaram um pouco com algumas crianças e se despediram de Anna que, acenando, pronunciou um “Deus os abençoe...”

Andréia e Bola ficaram com aquela sensação de missão cumprida. Por outro lado, Anna estava preocupada porque agora tinha mais um problema além da falta dos cobertores: o excesso de alimentos.  Excesso?  Sim, excesso.  A maioria dos doadores doa leite em pó, arroz, feijão e alimentos não perecíveis do tipo que os amigos de Andréia trouxeram.  O almoxarifado da creche estava com as prateleiras repletas de latas de leite em pó e de pacotes de feijão. Seria muito difícil consumir todo aquele estoque antes do prazo de validade.  

Você deve estar se perguntando por que Anna não explicou aos doadores que não precisava dos alimentos, correto? Como certa vez também tive essa dúvida posso tentar responder: a experiência de Anna a ensinou que se não omitisse o fato poderia ser má interpretada pelos doadores, os quais, eventualmente, pensariam: “Puxa, eu me esforço para fazer uma doação e ela diz que não precisa? Ora, não trago mais nada aqui!” Aprendi a entender essa situação e esse “egoísmo” de auto-defesa. Não podemos criticar Anna, não podemos criticar Andréia e nem tampouco os milhares ou milhões de doadores e beneficiários que, como eles replicam essa situação no Brasil e em outras partes do mundo.  

Quer mais? Lembra dos cobertores de que Anna tanto precisava na creche? Esteja certo de que muitos desses cobertores foram doados a um asilo onde a voluntária de plantão ao ver uma caixa chegando ficou torcendo: “tomara que sejam latas de leite em pó, latas de leite em pó...”.  Isso ocorre pois no inconsciente popular velhinhos têm frio e crianças precisam de leite. O desequilíbrio ocorre e parte dos estoques ou estraga ou é perdida. Trata-se de um problema de distribuição que precisa ser resolvido ou, ao menos, amenizado. Problemas como esse podem ter solução se tratados com tecnologia e inteligência logística.

Logística Social - Tecnologia e Logística a serviço de um mundo melhor foi a visão que motivou um grupo de profissionais de Campinas, São Paulo, a fundar o Instituto Quasar de Tecnologia e Logística Social, uma organização da sociedade civil de interesse público e sem fins lucrativos. Como profissionais de logística e tecnologia perceberam que o conhecimento que tinham na solução de problemas de distribuição no chamado mundo corporativo poderia ajudar o terceiro setor. A decisão inaugurou no Brasil e no mundo a chamada Logística Social.

O primeiro projeto do Instituto é uma Câmara de Compensação Social que promoverá uma redistribuição dos excedentes entre instituições de um modo extremamente simples e eficaz. A Câmara funcionará como um banco virtual de excedentes que poderão ser pesquisados por instituições demandantes.  Com o sistema concebido pelo Quasar, Anna, a voluntária que estava com excesso de alimentos e falta de cobertores, poderá resolver ou amenizar seu problema do seguinte modo: depositará as caixas de leite que possui em excesso em uma câmara de compensação virtual e, em troca, receberá quasares (Q$), unidades monetárias sociais concebidas pelo Instituto. Esses quasares serão creditados em uma conta corrente que a instituição terá no sistema.  

Para entender para que servirá essa moeda, não perca a visão sistêmica: lembra daquela voluntária do asilo que torcia por latas de leite em pó ao receber cobertores que já possuía?  Pois então, ela depositará esses cobertores na Câmara de Compensação Social e também terá quasares creditados em sua conta. Cobertores e latas de leite estarão visíveis a todos e, a partir de então poderão ser “comprados” com quasares. Anna utilizará seus quasares para comprar os cobertores de que precisa e o asilo poderá adquirir o leite que necessitado.  Quem diria que uma moeda poderia ter função social?

Com a força da idéia desse projeto e com uma estrutura de gestão baseada nas melhores práticas de governança corporativa, o grupo, pequeno no início, conquistou centenas de outros profissionais e tem trabalhado com extremo profissionalismo buscando soluções logísticas para as demandas sociais brasileiras.  

A importância de uma organização da sociedade civil de interesse público como o Instituto Quasar amplia-se na medida em que deixa clara em sua missão a implementação de soluções  logísticas para o terceiro setor e não só para instituições filantrópicas. A Câmara de Compensação Social voltada à redistribuição de excedentes é, sem dúvida, extremamente importante, entretanto, o Quasar quer levar inteligência logística à sociedade em seus mais diversos níveis e demandas. Logística para educação; para organismos de Defesa Civil; para doação de órgãos; para programas de segurança alimentar; para os serviços ao cidadão; logística para um mundo melhor.

O Quasar é um exemplo claro de que a sociedade civil organizada, sem fins lucrativos e voltada ao interesse público pode encontrar as soluções de que o Brasil precisa.  Se você ou sua empresa possuem conhecimento ou meios para contribuir com missões como as do Instituto Quasar, não deixe de fazê-lo.  As soluções somos nós.  O Brasil precisa de você.
 
Rubens Mazzali
Diretor Executivo do Instituto Quasar de Tecnologia e Logística Social



Fonte: http://br.news.yahoo.com/060320/11/12xhp.html

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