Alguém consegue imaginar um brasileiro que não faça uma pausa no dia estressante de trabalho para tomar um cafezinho? Ou, na hora do almoço, alguém é capaz de resistir às chamativas e saborosas sobremesas? Para alegrar uma criança, basta uma simples bala e para as vovós, o chá da tarde é um momento de paz e conforto com os familiares ou amigas. Agora, imagine tudo isso sem a presença do açúcar. Com certeza, seriam momentos bem mais amargos.
Trocadilhos à parte, o açúcar está presente na história há mais de 12 mil anos. Antes de existir tal como o conhecemos hoje, as duas únicas fontes de sabor doce no mundo eram o mel e a cana. Bastante difundida na Polinésia a partir de 8000 a. C., a cana se espalhou pela península da Malaia, Indochina e Bengala, chegando depois à Europa de onde se expandiu para o resto do mundo.
Durante centenas de anos, o açucar foi considerado uma especiaria extremamente rara e valiosa, atingindo preços altíssimos nos boticários (as farmácias de antigamente), sendo acessível somente aos mais poderosos. Com a descoberta da América, passou a ser acessível a todas as camadas sociais.
Uma vez no Brasil, a fertilidade da nova terra descoberta e as condições climáticas favoráveis fizeram da cana-de-açúcar o principal produto de colonização agrícola. Os engenhos de cana ganharam força no Nordeste por volta de 1570, assegurando lucro e prosperidade à região durante quase 200 anos, fazendo surgir ali a elite colonial – escravocrata e patriarcal – que se utilizava da mão-de-obra indígena ou negra. A organização da produção estabelecida pelos portugueses levou a uma estrutura de poder concentrada nas mãos de grandes latifundiários, que se manteve mesmo após a independência do país, em 1822.
Durante muito tempo, o Brasil praticamente não tinha concorrência na exportação de açúcar para a Europa. Expulsos do Brasil, em 1654, os holandeses levaram a cultura açucareira às Antilhas, concorrendo com a produção brasileira. Conhecendo bem o sistema de produção, a Companhia das Índias Ocidentais conseguiu fabricar um açúcar mais barato e de excelente qualidade, fato que levou os senhores de engenho a buscar outras formas de comércio com a produção do fumo e criação de gado no sertão.
Hoje, os tempos são outros, mas o açúcar continua sendo uma das principais fontes de geração de renda no país. Grandes e pequenas empresas têm investido, principalmente, na criação de novos tipos de açúcar focando públicos específicos e atendendo à demanda do mercado por produtos diferenciados. Assim, é possível encontrar nas prateleiras o açúcar cristal, mascavo, para confeiteiro, orgânico, light, líquido, em sachês e em torrões, como se vê nos filmes.
Ideal para quem não dispensa um doce, o açúcar mascavo, também conhecido por açúcar integral bruto, é a primeira concentração do caldo de cana e não passa pelo processo industrial de refinamento, o que o isenta de aditivos químicos em sua composição. Enquanto o produto refinado oferece apenas as calorias vazias da sacarose, o mascavo incorpora todos os pontos positivos da cana, sendo muito mais nutritivo e chegando até a ser uma alternativa mais saudável de consumo.
No processo de industrialização, as empresas direcionam a produção para segmentos específicos, como no caso do açúcar de confeiteiro, que possui grânulos bem finos e cristalinos, produzido diretamente na usina, sem refino e utilizado na produção de massas, biscoitos, confeitos e bebidas. Outro segmento que vem crescendo é o de sachês, pela praticidade e conveniência, já que é apresentado na quantidade ideal para uma xícara de café ou chá. Até o momento, as empresas investem na distribuição para estabelecimentos, hotéis e grandes redes, mas já está chegando no mercado sachês para venda direta ao consumidor.
A Lowçucar, por sua vez, investiu no lançamento do açúcar light, tornando-se a primeira empresa brasileira a lançar essa variedade. A grande diferença do Açúcar Light Magro Lowçucar é que ele adoça até quatro vezes mais que o açúcar comum devido à combinação de ciclamato, sacarina e aspartame. “ Por ele ser quatro vezes mais doce que o açúcar comum, tem-se uma redução de 70% nas calorias consumidas”, afirma Márcia Pozzi, Engenheira de Alimentos do Setor Desenvolvimento da empresa. A Lowçucar também foi pioneira no lançamento do açúcar líquido aromatizado, desenvolvido para pessoas que necessitavam do produto de uma maneira prática e rápida.
Outra empresa que produz o açúcar líquido é a Dulcini, com três linhas do produto: Dulci (refinado), Gludex (invertido) e Xarin (de coloração caramelada) Este último foi desenvolvido exclusivamente para a Nestlé e recebeu um prêmio na categoria “produto mais inovador”. Para Glaciane Mendes Roland, gerente de marketing da empresa, a filosofia da Dulcini é fornecer produtos com qualidade assegurada e soluções inovadoras.
O açúcar líquido é obtido de sacarose refinada e apresenta baixa cor e turbidez, bem como ausência de odores estranhos. Na Dulcini, o processo de fabricação do açúcar é bastante rigoroso e, segundo Glaciane, uma das vantagens deste tipo de açúcar é a eliminação da necessidade de estocagem do tradicional saco, onde podem ocorrer depósitos de poeira, sujeiras, parasitas e vetores de microorganismos, contaminando o produto.
Outra categoria de açúcar que vem conquistando cada vez mais o mercado é o orgânico. Pioneira na produção do açúcar orgânico no Brasil, a Usina São Francisco deu início, em 1986, ao projeto Cana Verde, cujo objetivo era desenvolver um sistema auto-sustentável de produção de cana-de-açúcar que manifestasse um potencial ecológico e de acordo com a cultura orgânica, ou seja, desde o preparo do solo até a industrialização e embalagem, tudo é feito sem a utilização de insumos químicos artificiais.
Dentro do universo de produtos orgânicos, o açúcar é o terceiro mais importante do país, perdendo apenas para as hortaliças e o café. Do Projeto Cana Verde surgiu o açúcar da marca Native, o primeiro do gênero orgânico no Brasil. Segundo Leontino Balbo Júnior, diretor da Native, a empresa é tão preocupada com a causa ecológica que até mesmo a embalagem do produto expressa essa preocupação. Apesar das marcas mais conhecidas terem migrado da embalagem de papel para a embalagem plástica para ajudar na conservação e segurança do produto, a Native fez o caminho inverso. “Optamos por uma embalagem de papel cartão, que é biodegradável e está em harmonia com os compromissos ambientais da agricultura orgânica”, diz ele.
Pioneirismo também é a marca registrada do Atelier do Açúcar, que trouxe do exterior uma variedade que é comum por lá, mas que no Brasil não é muito utilizado: o açúcar em torrões. “Imagine o que é criar um produto que quase ninguém conhecia! Todos pensavam que se tratava de balinhas”, brinca Tânia Corrêa Simões, diretora comercial da empresa. De fato, quem vê os torrões em formato gota, não consegue imaginar outra coisa senão se tratar de balas de goma. Ainda mais se forem os torrões coloridos, uma exclusividade do Atelier. “Procuramos, a partir de uma idéia, fazer algo totalmente diferenciado. As outras empresas fazem torrões brancos ou, no máximo, em cores de tons mais suaves, mas essas cores fortes, só nós temos”, esclarece.
Hoje, a empresa produz torrões em dois formatos (cubo e gota), cada um deles nas opções branco, soft (cores em tons pastéis) e color (cores mais fortes). Além disso, o Atelier do Açúcar possui uma linha de suspiros coloridos (de chocolate, limão e maracujá), light e biscoitos de polvilho também em cores, fornecendo para as maiores redes de supermercados e exportando para os Estados Unidos. “Fazemos também com marca própria para uma grande refinadora”, diz ela, sem revelar nomes. Tudo isso, com metodologia industrial européia. A grande vantagem dos torrões é que se trata de um produto higiênico, prático e econômico, evitando o desperdício quando utilizado, como no caso do açúcar comum.
Com tanta variedade, o consumidor tem um leque de opções adequado aos diversos tipos de consumo. No entanto, se o conceito do produto não estiver bem definido, toda essa variedade pode confundir. “É preciso que os revendedores façam um trabalho de explicação das características de cada qualidade de açúcar, para que o cliente faça sua escolha baseado nas características do produto e não apenas em preços”, ensina o diretor da Native.
Preço é, aliás, o maior diferencial na escolha das mercadorias no supermercado. Porém, as empresas alertam que analisar os custos comparativamente gera um resultado incompleto e, conseqüentemente, errôneo, já que cada tipo de açúcar possui benefícios e características diferenciadas, o que justifica um preço mais elevado. Apesar de nem todos os bolsos poderem pagar por essa sofisticação, o açúcar vai continuar sendo indispensável em todas as mesas e sempre fará parte da alimentação do ser humano.
Referências:
* Lowçucar: (44) 218-2399
* Native: 0800-555689
* Dulcini : 0800-170122
* Atelier do Açúcar: (11) 4426-6761
Açúcar de beterraba
Pouca gente sabe, mas a cana não é a única matéria-prima do açúcar. A beterraba também é uma grande fonte de sacarose, que é o açúcar propriamente dito e cuja diferença está apenas no processo de extração, purificação e clarificação. O produto final é idêntico.
O açúcar de beterraba foi extraído pela primeira vez em 1747, embora já tenha sido descoberto como integrante da beterraba em 1575. Em 1786 houve uma tentativa de passar a solidificação do açúcar para o plano industrial, mas os altos custos e a baixa produção não trouxeram os resultados esperados. Só mais tarde foi concretizada a extração industrial do açúcar de beterraba na França.
Atualmente, o maior produtor mundial de açúcar de beterraba é a Rússia e seu consumo é amplamente utilizado em regiões de clima mais frio como Estados Unidos, Canadá e Europa. Já o açúcar de cana se adapta melhor em climas quentes como o Brasil.
A fabricação do açúcar no período colonial
Nos primeiros anos do Brasil, os grandes senhores de engenho enriqueceram com a produção de açúcar utilizando mão de obra escrava. As grandes propriedades possuiam estrutura para se realizarem todas as etapas da produção, exceto o refino do açúcar. O caldo da cana era extraído em moendas movidas, geralmente, por escravos ou animais, exceto nas propriedades mais ricas, que já faziam esse processo utilizando máquinas.
Fervido e engrossado, o caldo era colocado em fôrmas de barro ou de madeira, para secar e endurecer. Em estado bruto, ou parcialmente moído, o produto era transportado até os portos do litoral, de onde eram embarcados para Amsterdã, Londres, Hamburgo e Gênova para serem refinados. Mesmo a corrida do ouro em Minas Gerais, o Brasil sempre exportou mais açúcar do que qualquer outro produto para a Europa.
Fonte: http://br.news.yahoo.com/060320/11/12xhp.html