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Folha de coca: droga ou alimento?

quarta-feira, março 22, 2006
Há poucos dias, o ministro das Relações Exteriores da Bolívia, David Choquehuaca, anunciou que seu país deverá implantar a folha de coca como merenda nas escolas públicas em substituição do leite e das frutas, que tradicionalmente são oferecidas às crianças. O anúncio faz parte da campanha do novo presidente boliviano, Evo Morales, de despenalizar o produto. Tanto assim que, ao participar da posse da nova presidente chilena, Michele Bachelet, Morales ofereceu à secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, um instrumento musical boliviano semelhante ao nosso violão. Rice, considerada uma excelente pianista e grande apreciadora de música, gostou e agradeceu o presente, mas ficou sem graça ao perceber que o instrumento era forrado por folhas de coca, o que fez rir as pessoas que estavam ao redor. Além da cocaína Com este gesto provocativo e ao mesmo tempo engraçado, Morales quis demonstrar que a folha de coca tem muitas outras utilidades, além de ser um insumo na produção da cocaína. Por sua vez, a poderosa norte-americana, mesmo que queira, está impedida de levar o presente aos Estados Unidos, pois, pelas leis de seu país, a importação de folha de coca está proibida desde 1962. Pergunta que não quer calar: a folha de coca é um mal que tem ser combatido até sua total extinção, como pretendem as autoridades dos Estados Unidos, ou pode, realmente servir de nutriente? A folha de coca faz parte da cultura e da tradição dos povos andinos que vivem em terras altas. Para eles é um alimento básico, que mata a fome de seu povo. É também um medicamento que, entre coisas, permite combater os efeitos do ar rarefeito das grandes altitudes. De acordo com estudos arqueológicos há evidências de que os índios bolivianos já tinham conhecimento da folha de coca há pelo menos dois mil anos. Os paqo, sacerdotes andinos, costumam carregar em pequenas bolsas feitas de lhama as folha de coca para fazer adivinhações. De acordo com a tradição, quando dois jovens desejam se casar cabe à mãe do pretendente levar uma folha de coca à futura noiva, como símbolo desta união. Nos ritos sagrados destas comunidades que a folha de coca tem um papel especial. Há uma oferenda religiosa chamada k’intu, na qual são colocadas três folhas de coca ou múltiplos de três. A maior representa Apus, os espectros protetores da natureza e que protegem os povos andinos; a do meio é dedicada à Pachamama, mãe Terra, provedora da vida; enquanto a menor representa toda a humanidade. Assim, para os povos andinos a folha de coca, além de um alimento e um medicamento, é um símbolo sagrado que dá sentido à vida, unifica seus povos e é parte vital de seu cosmouniverso. Muito cálcio E para a ciência, qual é o valor da folha de coca? Estudos feitos pela Universidade Harvard há 30 anos constataram que a folha de coca tem mais cálcio do que o leite e mais fosfato do que o peixe, além de de conter a vitamina A e buflavina (um componente da vitamina B). Segundo o mesmo estudo, 100 gramas diárias de folhas de coca são suficientes para abastecer o corpo humano de todas suas necessidades de cálcio e fósforo. Outros trabalhos também observam que a folha de coca, além de ser um importante complexo vitamínico, contém valor calórico e proteínas. Como medicamento já ficou comprovado que a folha de coca, além de ser estimulante e revigorante, ajuda a melhorar o metabolismo, a oxigenação do sangue, a freqüência respiratória, o mal das alturas, a combater doenças como diarréias, dores de cabeças e anemias. Refrigerante A folha de coca pode ser matéria prima para produtos industriais. Em dezembro último, um pequeno industrial colombiano, de origem indígena, anunciou o lançamento de um refrigerante feito à base de folha de coca. A bebida, Pek Cola, parece que está sendo bem aceita, apesar de ser produzida inicialmente em pequenas escalas (apenas 50 mil garrafas mensais). O refrigerante tem cor amarelada, cheiro de chá e gosto semelhante à cidra de maçã. Além do chá de coca que já começa a ser consumido em países fora do continente – o Japão é um deles –, a folha origina produtos como chicletes, desinfetantes e até um alimento – uma massa composta de sua matéria prima –, que tem um gosto ora doce, ora amargo. Mas o mais curioso é que a Coca-cola, bebida que é consumida diariamente por centenas de milhões de pessoas há mais de 120 anos, utiliza como um dos insumos de seu xarope a folha de coca. E não há nenhuma dúvida de que a Coca-cola não seja uma droga. Mesmo a cocaína, na passagem do século 19 para o 20, foi usada inicialmente como medicamento. Tanto assim que Freud chegou a recomendar o uso da droga a seus pacientes – e Freud não era e nem pretendia ser um narcotraficante. Há também um fator especial, nunca lembrado pelos que combatem as folhas de coca e desejam a destruição do plantio – o alcalóide usado para a produção da cocaína representa apenas 0,05% da folha. Cautela Mesmo com tantos elementos a seu favor, Morales tem agido com cautela em relação à liberação da folha de coca. Por enquanto deve respeitar o acordo feito por anteriores governos bolivianos de limitar o plantio da coca a 1.600 metros quadrados por família. Esta produção permitirá que os bolivianos tenham a quantidade de folhas de coca necessárias para seu consumo. Exportando O que sobrar da produção do chá de coca pode ser exportado. Morales pretende aumentar os rendimentos desta "commoditie". Tanto que está negociando com a China uma significativa exportação do produto. Isto pode permitir o aumento das áreas de produção, sem ferir as leis de seu país e os acordos com os Estados Unidos. Por outro lado, Morales chegou a um acordo com a União Européia, que fará um minucioso relatório científico sobre a folha de coca e prometeu entregá-lo nos próximos meses. Ciente da valorização da folha neste relatório, Morales está também estimulando os produtores bolivianos a usar de sua criatividade e dar uso industrial à folha de coca e, neste campo, há um milhão de oportunidades.



Fonte: http://br.news.yahoo.com/060320/11/12xhp.html

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